Banimento em massa em Call of Duty atinge usuários de softwares de trapaça e provoca queixas nas redes
São Paulo – Uma nova rodada de banimentos permanentes em Call of Duty, anunciada na semana passada pela Activision, gerou reclamações de jogadores que utilizavam programas de trapaça e expôs a dimensão do mercado clandestino de cheats no popular jogo de tiro em primeira pessoa.
O streamer conhecido como ItsHapa publicou no X que a ação mirou usuários do ArtificialAiming, provedor de cheats com quase duas décadas de atuação. Segundo ele, diversos jogadores relatam ter perdido contas antigas — algumas com quatro anos de progressão — após a atualização dos sistemas de segurança da franquia. Capturas de tela extraídas de fóruns fechados mostram comentários de usuários lamentando o bloqueio definitivo dos perfis, impossibilitando a criação de novas contas.
Em resposta ao TechCrunch, o porta-voz da Activision, Neil Wood, confirmou que houve uma “onda de enforço” atingindo “múltiplos fornecedores de trapaça”, não apenas o ArtificialAiming. Ele, porém, não especificou o número de contas afetadas. Históricos anteriores indicam que ações desse tipo podem alcançar centenas de milhares de perfis em um único ciclo.
Ferramenta em nível de kernel amplia capacidade de detecção
Desde 2021, Call of Duty opera o sistema anticheat Ricochet, que atua em nível de kernel e monitora processos em execução no computador do jogador. Soluções desse tipo, adotadas também por empresas como a Riot Games, oferecem visibilidade profunda sobre possíveis programas externos, mas levantam debates referentes à privacidade dos usuários.
A intensificação do Ricochet explica parte do aumento de detecções. De acordo com uma fonte familiarizada com a cena de cheats, o ArtificialAiming, embora seja tradicional no segmento, vem sofrendo maior taxa de identificação de seus softwares. Nos fóruns privados, administradores do serviço já reconheciam, em 2021, uma “disputa de milhões de dólares” com as desenvolvedoras, que passaram a investir pesado em equipes de segurança digital.
Mercado clandestino movimenta grandes cifras
Trapaças em jogos eletrônicos constituem negócio lucrativo. Em 2021, autoridades chinesas desmontaram o que classificaram como o maior esquema de cheats para PUBG Mobile. O fundador do serviço afirmou ter faturado cerca de US$ 77 milhões. Outros desenvolvedores relatam ganhos de cifras milionárias ou o suficiente para não trabalhar por anos. Em contrapartida, alguns foram obrigados pela Justiça a reembolsar empresas de jogos em processos civis.
A prática também gera custos às publishers. Para garantir ambiente competitivo equilibrado, companhias como a Activision aumentaram investimentos em tecnologias de detecção e em equipes de análise de dados. A cada ciclo de banimentos, essas ferramentas cruzam informações de software, comportamento in-game e infraestrutura de servidores, bloqueando contas vinculadas a irregularidades.
Reação da comunidade
Nos fóruns do ArtificialAiming, vários clientes manifestaram frustração. Um participante escreveu: “Foi uma longa jornada, bom jogo a todos”. Outro disse ter perdido “duas contas principais, uma delas com quase quatro anos”. Há ainda quem declare abandonar a franquia definitivamente após o bloqueio.
O impacto não se restringe ao grupo. Moderadores de comunidades dedicadas a trapaças relatam aumento repentino de relatos de banimento em títulos recentes da série, incluindo o aguardado Call of Duty: Black Ops 6, previsto para 2024. A expectativa é que novas barreiras técnicas entrem em operação antes mesmo do lançamento oficial, repetindo a estratégia de ban wave preventiva adotada em edições anteriores.
Política de tolerância zero
Em comunicado, a Activision reafirmou o compromisso de “prosseguir contra quem ameaça a comunidade”, abrangendo tanto usuários quanto desenvolvedores de trapaças. A empresa reforçou que banimentos permanentes não podem ser apelados e que medidas adicionais, como bloqueio de hardware, podem ser aplicadas em casos recorrentes.
Analistas do setor observam que ban waves cumprirão papel contínuo na manutenção do ambiente competitivo, especialmente em jogos com ênfase em esportes eletrônicos. Embora não eliminem completamente o problema, reduzem a vida útil de cada software ilícito, elevando custos e riscos para quem fornece ou utiliza esse tipo de ferramenta.
Para a comunidade de jogadores legítimos, o objetivo é oferecer partidas mais equilibradas. Já para cheaters e seus desenvolvedores, cada avanço tecnológico das empresas significa a necessidade de recriar códigos, contornar novas camadas de verificação e lidar com possíveis prejuízos decorrentes de contas, skins e progressões perdidas.
Apesar das reclamações, a Activision mantém a postura de que a política de tolerância zero e a atuação contínua do Ricochet são fundamentais para preservar a integridade competitiva de uma das franquias mais populares da indústria de games.

