China acelera investimentos para reduzir diferença com EUA na corrida pela inteligência artificial

A China intensificou, ao longo da última década, uma política industrial de grande escala para transformar o país em referência global em inteligência artificial (IA). O esforço combina subsídios, crédito facilitado e construção de infraestrutura tecnológica para enfrentar as restrições impostas pelos Estados Unidos e diminuir a dependência de fornecedores externos.

Resposta rápida ao bloqueio de sistemas estrangeiros

Em julho do ano passado, a OpenAI suspendeu o acesso de desenvolvedores chineses a seus sistemas avançados. O movimento levou equipes locais a recorrer a modelos de código aberto, inicialmente disponibilizados pela Meta. Doze meses depois, empresas domésticas como DeepSeek e Alibaba lançaram soluções open source consideradas entre as mais avançadas do mercado, indicando rápida capacidade de adaptação.

Estratégia estatal consolidada

Desde 2014, Pequim destinou cerca de US$ 100 bilhões ao setor de semicondutores e, em abril deste ano, anunciou outros US$ 8,5 bilhões para startups de IA. O governo cobre toda a cadeia: incentiva fábricas de chips, financia data centers e subsidia o consumo de energia. Laboratórios nacionais, muitos em parceria com gigantes como Alibaba e ByteDance, concentram pesquisadores e compartilham recursos computacionais.

Essa abordagem replica a fórmula utilizada para liderar mercados de veículos elétricos, baterias e painéis solares. O objetivo é garantir três pilares considerados críticos para IA – poder de processamento, mão de obra qualificada e grandes volumes de dados – sem depender de fornecedores estrangeiros.

Pressão externa e busca por alternativas

Enquanto Pequim amplia investimentos, três administrações em Washington adotaram medidas para restringir o avanço tecnológico chinês. As limitações atingem sobretudo a venda de chips de ponta da Nvidia, principal fabricante norte-americana. Na segunda-feira, a Nvidia recebeu licença dos EUA para comercializar o modelo H20 na China, mas empresas como a Huawei aceleram projetos próprios para evitar vulnerabilidades futuras.

A Semiconductor Manufacturing International Corp. (SMIC), maior fundição de semicondutores do país, absorve parte considerável dos recursos públicos. A companhia desenvolve chips voltados a IA para suprir fabricantes locais, mas ainda enfrenta desafios de escala e desempenho em comparação às soluções da Nvidia.

Infraestrutura e dados sob controle estatal

Diferentemente do modelo norte-americano, em que conglomerados privados financiam grande parte dos data centers, na China a construção de servidores e os gastos com energia recebem aporte direto de governos locais e bancos estatais. Cidades competem para sediar parques de inovação e oferecer subsídios a centenas de startups que surgiram desde o boom da IA generativa.

No campo dos dados, o ambiente censurado elimina o acesso a plataformas como Reddit e Wikipedia, amplamente utilizadas nos Estados Unidos para treinar modelos. Para contornar a limitação, órgãos oficiais compilam grandes corpora a partir de veículos estatais e outras fontes aprovadas pelo governo. Além disso, aplicações populares de empresas como ByteDance fornecem volumosos conjuntos de informações sobre comportamento de usuários, complementando o material disponível.

Vantagens e limitações do modelo centralizado

O mecanismo de financiamento top-down permite direcionar capital a setores considerados estratégicos em curtos prazos, mas também cria ineficiências. Muitas startups competem pelos mesmos contratos públicos e oferecem modelos a preços reduzidos para captar talentos, o que pode diluir recursos. O país investiu pesadamente em reconhecimento facial antes do salto da IA generativa, demonstrando a dificuldade de prever mudanças tecnológicas rápidas.

Especialistas avaliam que, mesmo com desempenho inferior aos chips topo de linha dos concorrentes, soluções locais permitem continuidade dos projetos caso novas sanções bloqueiem componentes importados. O plano é garantir alternativas suficientes para manter o ritmo de pesquisa e implantação de sistemas de IA.

Com investimentos bilionários, apoio institucional e empresas capazes de lançar modelos comparáveis aos líderes globais, a China encurta a distância para os Estados Unidos na corrida pela próxima geração de tecnologias baseadas em inteligência artificial. O resultado desse esforço determinará o equilíbrio de poder em setores que dependem de aplicações avançadas, de automação industrial a serviços de consumo.