Conselheiro da Casa Branca mantém investimentos em IA e criptomoedas apesar de críticas sobre conflito de interesses
O anúncio de uma rodada de financiamento de US$ 22 milhões da Vultron, startup de inteligência artificial voltada a contratos governamentais, trouxe à tona novas discussões sobre as fronteiras entre serviço público e negócios privados em Washington. A empresa destacou a participação da Craft Ventures, gestora cofundada por David Sacks, atual conselheiro da Casa Branca para assuntos de IA e criptoativos no governo Trump.
Sacks ocupa simultaneamente dois cargos centrais na administração — “czar” de inteligência artificial e “czar” de cripto — enquanto preserva sua posição na Craft Ventures. Para continuar exercendo atividades no mercado, ele obteve dois termos de isenção ética. O primeiro, de março, aborda seus investimentos em criptomoedas; o segundo, emitido em junho, trata de suas participações em startups de IA. Especialistas em ética afirmam que a combinação cria um modelo inédito de atuação pública, no qual o beneficiário pode influenciar políticas que afetam diretamente seus interesses financeiros.
A advogada Kathleen Clark, professora da Universidade de Washington em St. Louis, examinou o documento referente às criptomoedas e classificou o arranjo como graft, termo em inglês que se refere a aproveitamento ilícito de cargo público para ganho privado. Ela questiona a falta de valores nominais nos papéis — o texto menciona apenas percentuais, informando que a fatia de Sacks no portfólio da Craft representava menos de 3,8% de todo o seu patrimônio no momento da assinatura. Para Clark, esse índice pode mascarar montantes elevados, além de ignorar ganhos potenciais futuros, ponto exigido pelos regulamentos federais.
A Vultron ilustra a controvérsia. A companhia desenvolve soluções de IA que prometem reduzir de semanas para dias o processo de elaboração de propostas para licitações federais; um cliente da Fortune 500 relatou economia superior a 20 horas por usuário a cada semana. Pessoas próximas à startup afirmam que o aporte da Craft ocorreu antes da nomeação de Sacks para a Casa Branca. Mesmo assim, críticos apontam que o “czar” de IA detém participação em um empreendimento que ajuda outros negócios a conquistar contratos sujeitos às políticas que ele próprio formulará.
No Congresso, a senadora Elizabeth Warren lidera o questionamento público. Em carta enviada em maio ao Escritório de Ética Governamental, a parlamentar lembrou que Sacks promovia um jantar com ingressos a US$ 1,5 milhão para executivos de criptomoedas enquanto delineava regras federais para o setor. Para Warren, a legislação costuma impedir conflitos de interesse tão diretos.
Sacks rebateu as acusações, alegando ter vendido grande parte de seus ativos digitais antes do ingresso no governo para evitar “qualquer aparência de conflito”. Defensores do empresário mencionam os desinvestimentos listados nos próprios termos de isenção: mais de US$ 200 milhões em moedas digitais foram alienados, dos quais pelo menos US$ 85 milhões pertenciam a ele. Invernos recentes incluem a venda de participação na xAI, de Elon Musk, e o início da retirada de investimentos em cerca de 90 fundos de capital de risco, inclusive veículos administrados pela Sequoia. De acordo com fontes ligadas ao conselheiro, qualquer nova operação em IA ou cripto precisa agora passar por avaliação do comitê de ética da Casa Branca, criando, segundo elas, um filtro adicional.
A rotina de Sacks adiciona outra camada ao debate. Servidor público por até 130 dias ao ano, ele mantém atividades privadas nos períodos restantes. Em setembro, por exemplo, apresentará a conferência anual do podcast “All In”, cujo ingresso custa US$ 7.500. Essas iniciativas são legais, mas reforçam a percepção de que não há separação nítida entre seus papéis público e privado.
O conselheiro ganhou visibilidade recente com a aprovação da GENIUS Act, lei que visa consolidar o mercado de ativos digitais nos Estados Unidos. Em entrevista televisiva, Sacks listou prioridades para a nova etapa: definir se determinados instrumentos se enquadram como valores mobiliários, commodities ou ativos digitais; ampliar normas sobre stablecoins; e analisar a criação de um eventual estoque nacional de moedas digitais. Nos bastidores, observadores avaliam que ele pode deixar o governo após esse marco, embora não haja prazo definido.
Para especialistas em governança, porém, o precedente já está dado. A rápida tramitação de legislações favoráveis ao setor de criptomoedas, combinada à manutenção de investimentos em empresas de IA que atuam junto ao governo, sugere que financiadores e gestores com acesso direto ao poder público podem extrair benefícios concretos desse arranjo. Mesmo com críticas contundentes, os termos de isenção permanecem válidos e, segundo juristas, dificilmente seriam contestados nos tribunais.
Resta saber se futuras administrações aceitarão ou revisarão essa “nova normalidade”, em que investidores de alto perfil continuam ativos no mercado enquanto moldam, de dentro do Executivo, as regras que podem valorizar seus próprios portfólios.

