O crescente recurso a companheiros virtuais baseados em inteligência artificial (IA) esteve no centro de um debate organizado pela Open To Debate, em Nova Iorque. A discussão colocou frente a frente Thao Ha, professora de Psicologia na Universidade Estadual do Arizona, e Justin Garcia, diretor do Instituto Kinsey, sobre a questão: a IA representa uma ameaça ou uma evolução das relações amorosas?
Cresce o uso de IA para companhia
Estudos citados durante o evento indicam que mais de 20 % dos utilizadores de plataformas de encontros recorrem à IA para criar perfis ou iniciar conversas. Aplicações como Replika, Character AI e Nomi AI já somam milhões de utilizadores, incluindo 72 % dos adolescentes norte-americanos. Uma pesquisa da Match.com revela que um quarto dos jovens adultos acredita que relacionamentos com IA podem substituir os humanos num futuro próximo.
Argumentos a favor da ligação homem-máquina
Thao Ha defendeu que os assistentes virtuais proporcionam apoio emocional constante, sem julgamento nem ego. Segundo a professora, muitos utilizadores relatam sentir-se compreendidos e valorizados por chatbots que “aprendem a amar” de forma consistente e adaptativa. Ha reconhece que a IA não possui consciência, mas sublinha que a experiência subjetiva de ser amado pode ser real para o utilizador. A investigadora vê potencial no uso de fatos hápticos e realidade virtual para introduzir contacto táctil nesses vínculos.
Riscos apontados pelos defensores da interação humana
Justin Garcia contestou a ideia de substituir relações humanas pelo vínculo com máquinas programadas para validar o utilizador. Para o cientista, a ausência de confronto, imperfeição e toque físico compromete o desenvolvimento emocional. Citou um estudo em que 70 % dos inquiridos consideram infidelidade o envolvimento do parceiro com uma IA, evidenciando impacto na confiança, elemento que classifica como fundamental nas relações. Garcia admite utilidade da IA como “rodas de treino” para quem tem ansiedade social, mas rejeita o modelo como solução permanente.
Preocupações éticas e necessidade de regulação
Ambos os especialistas reconheceram riscos, nomeadamente a possibilidade de chatbots amplificarem comportamentos agressivos. Ha defendeu a criação de algoritmos transparentes e normas éticas. Garcia lembrou que 65 % dos norte-americanos demonstram pouca confiança na IA para decisões éticas, segundo sondagem YouGov, e observou que “não prosperamos ao lado de quem não confiamos”.
A discussão reflete o dilema crescente entre conveniência tecnológica e necessidades humanas básicas, como o toque e a confiança, num momento em que os companheiros de IA ganham popularidade global.


