Ex-CEO da Windsurf detalha bastidores tensos antes da venda para a Cognition

A startup de codificação por inteligência artificial Windsurf viveu, em menos de 72 horas, uma virada que começou com a frustração de um acordo com a OpenAI, passou pela perda de seus principais executivos para o Google DeepMind e terminou com a assinatura de sua aquisição pela Cognition. O relato dos bastidores foi apresentado pelo então diretor de negócios e atual CEO interino, Jeff Wang, que descreveu a sequência de eventos entre sexta-feira, 11 de junho, e a manhã de segunda-feira seguinte.

Até a semana anterior, a expectativa da equipe era de que a Windsurf fosse comprada pela OpenAI. Porém, segundo Wang, as negociações ruíram e, na mesma ocasião, o Google DeepMind contratou o CEO Varun Mohan, o cofundador Douglas Chen e parte dos principais pesquisadores. O Google se comprometeu a licenciar a tecnologia da empresa dentro de um pacote estimado em US$ 2,4 bilhões, mas sem adquirir participação acionária. O movimento foi classificado no mercado como exemplo de “reverse acquihire”, estratégia em que grandes companhias evitam escrutínio antitruste ao contratar talentos e licenciar ativos em vez de comprar a startup.

Com a saída de Mohan, Wang assumiu interinamente a chefia da organização. Na sexta-feira, 11 de junho, ele conduziu uma reunião geral em que a maioria dos cerca de 250 funcionários aguardava confirmação da venda à OpenAI. Em vez disso, soube do acordo com o Google para contratação de parte do time. De acordo com Wang, o clima na sala foi “muito sombrio”: houve choro, questionamentos hostis sobre implicações financeiras e preocupação sobre a sobrevivência da empresa.

Apesar do abalo, a Windsurf manteve todo o seu portfólio de propriedade intelectual, o produto já em operação e uma equipe robusta nas áreas de vendas e marketing. A avaliação interna era de que ainda havia espaço para buscar nova rodada de financiamento, permanecer independente ou negociar venda total. A alternativa ganhou força poucas horas depois, quando Wang recebeu contato dos executivos da Cognition, Scott Wu e Russell Kaplan, interessados em discutir uma possível incorporação.

Segundo o relato do CEO interino, as conversas com a Cognition começaram ainda na noite de sexta-feira e avançaram de forma intensa ao longo do fim de semana. Paralelamente, o comando da Windsurf recebeu sondagens de outros potenciais compradores e se empenhou em assegurar a permanência dos engenheiros restantes. Para Wang, a complementaridade entre as duas empresas facilitou o diálogo: a Windsurf possuía uma máquina de go-to-market considerada de “classe mundial”, mas passava a carecer de um núcleo de engenharia; já a Cognition reunia especialistas de IA de alto nível, porém tinha carências comerciais e de marketing.

Um ponto central das tratativas foi garantir compensação financeira a todos os empregados que permaneceram. O acordo final previu pagamento proporcional, dispensa de períodos de carência (“cliffs”) e antecipação de todas as parcelas de vesting das ações detidas pela equipe da Windsurf. O contrato foi assinado na segunda-feira seguinte, às 9h30, anunciado imediatamente em nova reunião geral e divulgado ao mercado na sequência.

Wang resumiu a experiência dizendo que a sexta-feira representou “o pior dia na vida de 250 pessoas” e a segunda-feira, “o melhor”. Para a Cognition, além de absorver a tecnologia da Windsurf, a compra reforça sua estratégia de ampliar capacidade de engenharia com time especializado em IA, enquanto incorpora uma estrutura comercial pronta para escalar produtos. Já para os funcionários da Windsurf, o desfecho trouxe estabilidade imediata e preservação de valor financeiro, após um fim de semana marcado por incertezas sobre o futuro da operação.