Fórum no Rio discute riscos da inteligência artificial para o público infantil

Especialistas reunidos no Fórum Pensar a Infância, realizado em 10 de julho no cinema Net Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, avaliaram os impactos da inteligência artificial (IA) sobre crianças e adolescentes. O encontro integrou a programação do 22º Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI) e contou com a participação de educadores, designers e pesquisadores que apontaram a necessidade de supervisão constante no consumo de mídias digitais.

A educadora e gestora de inovação Giselle Santos foi enfática ao afirmar que o acesso a tecnologias digitais sem acompanhamento adulto não representa autonomia, mas abandono. Segundo ela, a exposição a plataformas de jogos como Roblox e Minecraft ou a brinquedos conectados, capazes de coletar informações pessoais, amplia a vulnerabilidade dos usuários mais jovens. Para Santos, a estrutura gamificada desses ambientes elimina espaço para erro, pausa e reinvenção, elementos considerados essenciais ao desenvolvimento lúdico.

Na abertura do fórum, a diretora do FICI, Carla Camurati, destacou a urgência em discutir a relação entre infância e IA. Camurati defendeu um diálogo aprofundado sobre problemas e soluções, com foco na construção de experiências digitais que respeitem as particularidades das diferentes faixas etárias.

A jornalista, escritora e pedagoga Carolina Sanches, mestre em Informática, Educação e Sociedade, reforçou a recomendação de afastar crianças de zero a seis anos de jogos ou brinquedos que utilizem recursos de inteligência artificial. A partir dessa idade, salientou, qualquer interação deveria ocorrer sob supervisão contínua de um adulto. Sanches apresentou obras que contribuem para o entendimento do tema, entre elas “Como ser um bom ancestral”, de Roman Krznaric, “A salvação do belo”, de Byung-Chul Han, e “A geração ansiosa”, de Jonathan Haidt.

Complementando a discussão, a designer Mariana Ochs, especialista em cultura digital na educação, exibiu exemplos de conteúdos considerados distópicos, preconceituosos ou imprecisos produzidos por sistemas de IA de grandes empresas de tecnologia, como Meta, Google e OpenAI. A apresentação buscou evidenciar que algoritmos podem reproduzir vieses e disseminar informações inadequadas quando não há filtros ou curadoria adequados.

O debate também abordou dispositivos físicos conectados. Entre as preocupações, destacaram-se bonecos e robôs que dialogam com crianças e solicitam dados pessoais, como endereço ou nome completo. Os painelistas alertaram que o destino dessas informações nem sempre é transparente, o que pode representar riscos de privacidade e segurança.

A convergência entre entretenimento, educação e IA apareceu como ponto crítico. Participantes do fórum observaram que muitas plataformas utilizam modelos preditivos para prolongar o tempo de tela, promovendo experiências repetitivas e limitando o brincar espontâneo. Esse cenário, segundo os especialistas, reduz oportunidades de criatividade e exploração fora do ambiente virtual.

Embora o encontro tenha apresentado recomendações práticas, como o estabelecimento de critérios de idade para contato com IA e a necessidade de mediação permanente, os participantes reconheceram a complexidade do tema. Ao encerrar a sessão, Carla Camurati avaliou que ainda faltam respostas definitivas e ressaltou a premência de elaborar diretrizes antes que avanços tecnológicos se consolidem sem garantias de proteção ao público infantil.

O 22º Festival Internacional de Cinema Infantil prossegue com sessões presenciais no Rio de Janeiro até sábado, 13 de julho, e permanecerá disponível em versão online para todo o país até 30 de julho. A programação inclui filmes, debates e oficinas voltados à formação de plateias e à reflexão sobre os desafios da cultura digital na infância.