Google testa resumos de IA no Discover e aumenta preocupação de editores com queda de audiência

O Google iniciou a liberação de resumos gerados por inteligência artificial no Discover, feed de notícias exibido dentro do aplicativo de busca para iOS e Android. A mudança, observada por usuários nos Estados Unidos, substitui o formato tradicional — composto por título e imagem de um único veículo — por um bloco que reúne logotipos de várias publicações no canto superior esquerdo e um resumo produzido por IA que cita essas fontes.

Logo abaixo do texto, o aplicativo exibe um aviso de que o conteúdo foi criado por inteligência artificial e pode conter erros. A funcionalidade ainda não aparece para todas as matérias, indicando fase de testes. Questionado sobre a extensão do lançamento, o Google não se manifestou até o momento.

Além dos resumos automáticos, a empresa avalia outras maneiras de apresentar notícias no Discover. Alguns cards passaram a exibir tópicos em lista logo abaixo do título, enquanto outros agrupam publicações diferentes sobre o mesmo assunto. Durante os testes, uma reportagem sobre um suposto acordo do ex-presidente Donald Trump em relação à Ucrânia foi exibida junto com links de veículos que cobriam ações recentes do político; já um texto do The Washington Post a respeito do ICE foi acompanhado de pontos-chave que sintetizavam o conteúdo.

A iniciativa surge no momento em que diversos veículos experimentam recursos de IA em suas próprias plataformas. Wall Street Journal, Yahoo, Bloomberg e USA Today estão entre os que testam ferramentas de síntese automática. Startups também exploram o segmento, caso da Particle, leitor de notícias que resume artigos, apresenta diferentes pontos de vista e permite ao usuário fazer perguntas de acompanhamento para aprofundar a compreensão.

Apesar do interesse em automação, cresce a apreensão sobre o impacto dessas tecnologias no tráfego dos sites. Com recursos como AI Overviews e AI Mode, os usuários obtêm respostas resumidas diretamente na busca do Google, sem necessidade de clicar em links. Outras aplicações generativas, como ChatGPT e Perplexity, oferecem experiência semelhante, reduzindo o volume de visitas encaminhadas aos veículos.

Em tentativa de compensar a possível perda de receita, o Google lançou recentemente o Offerwall. Integrado ao Google Ad Manager, o recurso permite que os editores testem modelos de monetização menos dependentes de audiência massiva, como micropagamentos, pesquisas, inscrições em newsletters ou visualização de anúncios adicionais antes do acesso ao conteúdo completo. No entanto, parte do setor avalia que a proposta chega tarde, pois a redução no fluxo de usuários já é expressiva.

Dados da Similarweb citados pela revista The Economist apontam queda de 15% no tráfego mundial de buscas entre junho de 2023 e junho de 2024. O estudo também indica avanço das pesquisas que não resultam em clique: a proporção passou de 56% em maio de 2024, mês de lançamento do AI Overviews, para quase 69% em maio de 2025. No mesmo intervalo, o volume de visitas orgânicas despencou de um pico de 2,3 bilhões em meados de 2024 para menos de 1,7 bilhão.

Nesse cenário, o Discover vinha sendo uma das últimas fontes consistentes de cliques originados nos serviços do Google, mesmo diante da retração observada no mecanismo de busca tradicional. A introdução de resumos de IA, porém, pode alterar esse quadro se for implementada em larga escala.

Por enquanto, a empresa não divulgou cronograma nem detalhou critérios de elegibilidade das publicações para o novo formato. Também não há informações sobre eventuais ajustes em métricas de desempenho no Discover ou sobre como a exibição de múltiplos logotipos afetará o reconhecimento de marca dos veículos.

Com o aumento da participação da inteligência artificial no consumo de notícias, editores acompanham de perto os testes do Google. A preocupação central é que a apresentação de resumos diretos no feed desestimule o acesso aos sites originais, reduzindo ainda mais a receita obtida com publicidade ou assinaturas. A depender dos resultados, a adoção definitiva da funcionalidade poderá redefinir a relação entre agregadores de conteúdo e produtores jornalísticos.