Uso de inteligência artificial em tarefas escolares reacende debate sobre letramento e pensamento crítico
O avanço da inteligência artificial (IA) nas salas de aula tem modificado rotinas de leitura e escrita em escolas de todo o país, segundo relato publicado em 17 de julho de 2025 pela coluna “Vozes da Educação”, da Deutsche Welle. Alunos recorrem a plataformas automatizadas para redigir redações, responder questões ou resumir textos em questão de segundos, procedimento que, de acordo com educadores, levanta dúvidas sobre o desenvolvimento do pensamento crítico e sobre a autoria dos trabalhos acadêmicos.
A percepção foi descrita pela estudante de Letras Évila Policarpo Caldas Silva, voluntária do programa Salvaguarda, que auxilia candidatos da rede pública a ingressar na universidade. Ao presenciar colegas utilizando sistemas de IA para produzir respostas “copiadas e coladas”, Évila questionou se o aprendizado efetivo está ocorrendo ou se a ferramenta funciona apenas como atalho para concluir tarefas rapidamente. A estudante observou que, ao delegar a produção textual à tecnologia, muitos discentes deixam de passar pelos processos de erro, revisão e reflexão considerados essenciais para a construção de conhecimento.
Especialistas em educação apontam que a prática de leitura também é impactada. Ferramentas capazes de condensar longos trechos em resumos instantâneos estimulam um consumo de informação fragmentado e superficial, substituindo a leitura focada e reflexiva que tradicionalmente contribui para a formação de repertório. O fenômeno preocupa em especial no Brasil, onde indicadores de hábito de leitura já mostram tendência de queda e competem com o crescimento de atividades digitais.
Para a pesquisadora em alfabetização Magda Soares, citada no texto, a escola precisa discutir o que chama de “letramento artificial”. O conceito propõe repensar práticas pedagógicas à luz da convivência com algoritmos, sem abrir mão do desenvolvimento de competências humanas como argumentação, análise e posicionamento crítico. Segundo a autora, ler e escrever permanecem habilidades centrais para a participação cidadã e não podem ser substituídas por respostas geradas automaticamente.
Professores e gestores educacionais destacam a necessidade de criar diretrizes éticas claras sobre o uso de IA por docentes e estudantes. A proposta não é banir a tecnologia, mas incorporá-la de forma que complemente — e não substitua — o raciocínio humano. Entre as soluções debatidas estão atividades em que a IA sirva como ferramenta de pesquisa, enquanto o aluno permanece responsável por interpretar resultados, avaliar fontes e produzir sínteses próprias.
O contexto expõe um dilema: enquanto a IA oferece ganho de produtividade e acesso rápido a informações, há risco de empobrecimento da aprendizagem caso o processo criativo seja terceirizado. Pesquisadores ressaltam que a experimentação, o erro e a reescrita, etapas fundamentais para a consolidação do conhecimento, podem ser suprimidas quando o texto chega pronto à tela.
O programa social Salvaguarda, criador da coluna que publicou o relato, atua em todos os estados brasileiros com apoio de voluntários. A iniciativa acompanha estudantes que buscam vaga no ensino superior público e, semanalmente, alterna artigos assinados pelo fundador, Vinícius De Andrade, e pelos próprios participantes. O objetivo é dar visibilidade a experiências pessoais que reflitam desafios educacionais contemporâneos, como o impacto das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) no cotidiano escolar.
Embora não exista consenso sobre a extensão exata das mudanças provocadas pela IA, há acordo entre pesquisadores de que a adoção das ferramentas é irreversível. O debate, portanto, concentra-se em como equilibrar a incorporação da inovação com a preservação de competências intelectuais construídas ao longo da história da escrita. A decisão sobre quando e de que forma utilizar algoritmos no processo de ensino-aprendizagem permanece em aberto, cabendo às instituições definir políticas que estimulem a autonomia do estudante sem renunciar ao rigor acadêmico.

