Jack Dorsey aporta US$ 10 milhões em entidade que apoia mídias sociais de código aberto
O cofundador do Twitter e atual CEO da Block, Jack Dorsey, investiu US$ 10 milhões para lançar e financiar a “and Other Stuff”, organização sem fins lucrativos criada em maio com foco em redes sociais de código aberto. O grupo reúne antigos colaboradores de Dorsey e profissionais ligados a projetos descentralizados, com o objetivo de financiar experimentos, protocolos e aplicativos que possam remodelar a forma como as plataformas sociais são construídas e operadas.
Integram a equipe o primeiro funcionário do Twitter, Evan Henshaw-Plath; Calle, criador da plataforma de e-cash Cashu; Alex Gleason, ex-responsável de engenharia da Truth Social; e Jeff Gardner, quarto contratado da Intercom. Todos se conheceram por meio de contribuições ao Nostr, protocolo social aberto e sem alinhamento político que se tornou o principal foco de Dorsey após a venda do Twitter para Elon Musk e sua saída do conselho da Bluesky.
Embora o Nostr concentre parte do esforço, a “and Other Stuff” também pretende trabalhar com outros padrões descentralizados, como o ActivityPub — base do Mastodon —, além de ampliar o uso do Cashu. A proposta do coletivo é atuar como uma comunidade de hackers: não formar uma empresa, mas desenvolver tecnologias que possam ser usadas livremente por qualquer interessado.
Entre os experimentos já em andamento estão:
- Shakespeare — plataforma que utiliza inteligência artificial para auxiliar desenvolvedores a criar aplicativos sociais sobre o Nostr;
- heynow — aplicativo de mensagens por áudio baseado no mesmo protocolo;
- Carteira Cashu — ferramenta para movimentação de e-cash;
- White Noise — mensageiro privado;
- +chorus — comunidade social construída sobre o Nostr.
Dorsey já havia lançado, paralelamente, os aplicativos Bitchat e Sun Day, reforçando o compromisso com soluções abertas. Segundo Henshaw-Plath, o avanço de ferramentas de programação assistida por IA facilita a rápida criação de novos protótipos, fenômeno comparável ao impacto de tecnologias como Ruby on Rails, Django e JSON na era da Web 2.0.
Além de financiar projetos, a entidade apoia uma série de discussões públicas. Na estreia do podcast “revolution.social”, apresentado por Henshaw-Plath, Dorsey revisitou a história do Twitter e explicou por que acredita que plataformas sociais deveriam ser tratadas como protocolos, não empresas. Para ele, estruturas corporativas dependem de anunciantes e acabam determinadas por interesses comerciais, o que comprometeria a inovação e a autonomia dos usuários.
A experiência com a Bluesky reforça esse diagnóstico. Dorsey lembrou que, embora o projeto tenha surgido dentro do Twitter com a missão de criar um protocolo aberto, permanece sujeito a pressões governamentais e a investidores de capital de risco, características que, em sua visão, replicam limitações de redes tradicionais.
Diante desse cenário, o grupo trabalha também em uma “Declaração de Direitos das Mídias Sociais”. O documento deverá estabelecer princípios sobre privacidade, segurança, interoperabilidade, transparência, identidade, autogestão e portabilidade de dados, servindo como parâmetro para que plataformas mantenham responsabilidade perante seus usuários.
O aporte inicial de Dorsey garante a operação da nova organização e viabiliza o desenvolvimento de aplicativos para iOS. Voluntários contribuem na criação de versões para Android e na construção de bibliotecas e ferramentas destinadas a desenvolvedores. Henshaw-Plath afirma que outros projetos estão em fase de incubação, mas ainda não podem ser divulgados.
Com a injeção de recursos e a participação de nomes experientes em código aberto, a “and Other Stuff” busca acelerar alternativas descentralizadas às redes sociais convencionais, explorando modelos que, segundo seus integrantes, reduzam dependência de publicidade e ampliem a liberdade de desenvolvimento sobre protocolos públicos.

