Kesha lança Smash, plataforma que cria contratos transparentes entre músicos
Kesha, conhecida por sucessos como “TiK ToK”, assumiu um novo papel ao fundar a startup Smash, um aplicativo voltado à colaboração musical que promete facilitar acordos contratuais justos entre artistas. A iniciativa é liderada pela cantora ao lado do irmão, Lagan Sebert, e conta com Alan Cannistraro como diretor de tecnologia (CTO) e Lars Rasmussen entre os primeiros investidores.
O Smash foi concebido para funcionar como uma comunidade on-line na qual produtores, compositores e intérpretes podem encontrar parceiros criativos, negociar condições de uso de obras e formalizar contratos automaticamente dentro da própria plataforma. Segundo os fundadores, o sistema gera documentos que detalham percentuais de royalties ou valores de licença conforme a preferência de cada participante. Para manter a operação, a empresa pretende reter uma pequena parcela das transações realizadas no aplicativo.
A motivação de Kesha para estruturar o serviço está ligada à sua experiência na indústria fonográfica. Em 2014, a artista processou o produtor Dr. Luke por abusos físicos, psicológicos e sexuais. O processo desencadeou uma batalha judicial que se estendeu por anos e a obrigou a lançar três álbuns sob o selo do produtor, apesar de buscar a rescisão contratual. Somente em 4 de julho deste ano ela lançou um disco sem a intervenção dele, data escolhida para simbolizar independência. Ao recuperar o controle sobre a própria voz, Kesha decidiu oferecer a outros músicos ferramentas que evitem acordos considerados predatórios.
“Um dos principais objetivos é dar aos criadores a ‘chave’ para ingressar no mercado sem abrir mão de direitos autorais ou tomar decisões que comprometam toda a carreira”, afirmou Sebert em apresentações a investidores. A proposta, destacam os fundadores, é oferecer clareza sobre propriedade intelectual desde o primeiro contato entre colaboradores, reduzindo conflitos futuros e ampliando a autonomia de artistas iniciantes.
Para transformar a ideia em produto, a equipe buscou experiência técnica no Vale do Silício. Cannistraro trabalhou 12 anos na Apple, participando do desenvolvimento de aplicativos como iBooks, iTunes, Podcasts e Remote, além de projetos voltados a criadores, como o Final Cut. Após deixar a empresa, fundou a rede social de vídeos Rheo, mantendo proximidade com o mercado de conteúdo digital. Já Rasmussen, cofundador do Google Maps e investidor inicial da Canva, aproximou-se de Kesha durante um evento da ACTAI Ventures e facilitou os primeiros aportes de capital.
Embora ainda em fase de testes, o Smash planeja liberar acesso gradual a grupos de artistas selecionados até o fim do ano. Para validar ferramentas internas, a startup promoveu recentemente um concurso de remixes da faixa “Boy Crazy”. Os cinco vencedores receberão um valor considerado padrão pelo setor e terão as versões lançadas pelo selo da cantora, funcionando como projeto-piloto para os contratos automáticos.
Além dos acordos digitais, a plataforma pretende oferecer recursos de descoberta de talentos, contratação de serviços e integração de pagamentos. Todas as etapas, do convite à distribuição de receitas, ocorreriam dentro do aplicativo, o que, segundo a empresa, garante rastreamento de direitos e redução de intermediários.
O segmento de tecnologia musical tem observado crescimento de soluções que buscam equilibrar a relação entre criadores e gravadoras, especialmente após a popularização do streaming. Nesse contexto, o Smash aposta em diferenciais como a elaboração instantânea de contratos e a ênfase na transparência para atrair usuários preocupados com proteção autoral.
Embora Kesha mantenha carreira artística paralelamente, a fundadora afirma que o empreendimento é parte de um esforço para mudar práticas consolidadas na indústria. “Predatory deals like that are normal”, declarou em evento na Grécia onde apresentou a plataforma. Ao oferecer um ambiente que combina networking, produção colaborativa e formalização jurídica, a equipe acredita que pode reduzir barreiras de entrada para novos profissionais e incentivar acordos mais equilibrados.
Com a abertura prevista ainda para 2024, a startup continuará refinando funcionalidades e ampliando parcerias. O desempenho do Smash no lançamento deverá indicar se a proposta de contratos automatizados será suficiente para conquistar espaço em um mercado marcado por disputas de propriedade intelectual e dependência de grandes gravadoras.

