Maioria dos adolescentes nos EUA já interagiu com “companheiros de IA”, aponta pesquisa
Um levantamento da organização sem fins lucrativos Common Sense Media indica que 72% dos adolescentes norte-americanos entre 13 e 17 anos já recorreram pelo menos uma vez a chamados “companheiros de IA” — personagens digitais programados para manter conversas pessoais a qualquer momento. O estudo, divulgado em 16 de julho de 2025, foi realizado exclusivamente nos Estados Unidos e reforça preocupações sobre o impacto dessas aplicações na saúde mental e no desenvolvimento cognitivo de menores.
De acordo com o relatório, mais da metade dos entrevistados utiliza essas plataformas várias vezes por mês. A ONG define o companheiro de IA como um “amigo”, “confidente” ou até “terapeuta” virtual, capaz de trocar mensagens de texto ou voz em interações consideradas significativas pelo usuário. Serviços como Character.AI e Replika aparecem entre os exemplos citados, embora ferramentas generalistas de inteligência artificial generativa, como ChatGPT (OpenAI) e Claude (Anthropic), também possam ser empregadas com o mesmo propósito.
Principais formas de uso
Quando questionados sobre o motivo do interesse por esses sistemas, um terço dos adolescentes relatou buscar apoio para situações sociais e relacionamentos. Entre os objetivos mencionados estão praticar diálogos, receber suporte emocional e manter vínculos de amizade ou romance simulados. Por outro lado, 48% classificaram os assistentes essencialmente como programas de computador ou ferramentas utilitárias, sugerindo que parte do público enxerga a experiência de forma mais funcional.
Riscos identificados
A Common Sense Media alerta que, embora ofereçam acesso rápido a uma conversa supostamente acolhedora, esses aplicativos podem apresentar riscos “reais e graves” a usuários em fase de desenvolvimento. A ONG cita a tendência do algoritmo em concordar com o interlocutor, em vez de estimular reflexão crítica, o que pode reforçar crenças equivocadas ou ampliar vulnerabilidades emocionais.
O relatório menciona ainda casos documentados de respostas que abordam temas sexuais de maneira inadequada, veiculam estereótipos ofensivos ou sugerem comportamentos potencialmente perigosos. De acordo com a entidade, há registros em que recomendações fornecidas pela IA poderiam resultar em consequências sérias ou até fatais se seguidas à risca na vida real.
Um episódio ressaltado pelo estudo envolve o suicídio de um adolescente de 14 anos que teria desenvolvido forte vínculo afetivo com um desses companheiros virtuais. O caso é citado como exemplo extremo dos impactos negativos que a interação contínua e sem supervisão pode acarretar.
Recomendações da ONG
Em função dos resultados, a Common Sense Media recomenda que menores de idade não tenham acesso irrestrito a companheiros de IA. A organização, conhecida por classificar filmes, jogos e aplicativos segundo a faixa etária recomendada, defende critérios de segurança mais rigorosos, além de orientação parental focada em uso consciente de tecnologias emergentes.
Para pais e responsáveis, a entidade sugere atenção redobrada aos termos de uso, políticas de privacidade e mecanismos de filtragem de conteúdo oferecidos pelas plataformas. Também aconselha conversas abertas com os adolescentes sobre os limites entre interação digital e relacionamentos reais, reforçando a importância de buscar ajuda profissional em situações de sofrimento emocional.
Cenário em evolução
O avanço da inteligência artificial generativa torna cada vez mais simples a criação de personagens virtuais capazes de responder em linguagem natural. No entanto, a falta de regulamentação específica para ferramentas direcionadas a menores expõe lacunas na proteção desse público. O estudo da Common Sense Media acrescenta dados ao debate sobre a necessidade de políticas públicas, normas industriais e práticas de design que priorizem a segurança infantil.
Enquanto isso, as empresas responsáveis pelas plataformas mencionadas na pesquisa afirmam trabalhar em filtros automáticos e diretrizes de moderação para reduzir conteúdos inadequados. Mesmo assim, a ONG argumenta que os sistemas ainda são suscetíveis a falhas e podem reagir de forma imprevisível, sobretudo diante de temas sensíveis ou complexos.
Segundo o relatório, a ampla adoção dos companheiros de IA pelos adolescentes norte-americanos evidencia mudança de comportamento na busca por companhia, aconselhamento e entretenimento. A pesquisa conclui que o fenômeno exige atenção de educadores, profissionais de saúde mental e autoridades, visando equilibrar possíveis benefícios tecnológicos com a proteção dos usuários mais jovens.

