Marca de maquiagem Ami Colé anuncia encerramento das operações após captar mais de US$ 3 milhões

A fundadora Diarrha NDiaye-Mbaye comunicou que a startup de cosméticos Ami Colé deixará de atuar no mercado a partir de setembro. A decisão encerra a trajetória de uma das poucas empresas lideradas por mulheres negras que conseguiram superar a marca de US$ 1 milhão em capital de risco, somando mais de US$ 3 milhões captados, de acordo com dados da PitchBook.

Criada em 2021, a companhia nasceu com a proposta de oferecer produtos formulados especialmente para peles negras, segmento que ainda encontra dificuldades para encontrar tons e texturas adequadas nas grandes marcas tradicionais. Nos três anos de operação, a linha de maquiagem passou a ser vendida na rede de varejo Sephora, ganhou prêmios do setor e conquistou celebridades como a cantora Kelly Rowland e a atriz Mindy Kaling.

O aporte inicial envolveu fundos como G9 Ventures e Gretcroft, além de investidores-anjo, entre eles a empresária Hannah Bronfman e a editora-chefe da revista The Cut, Lindsay Peoples-Wagner. O interesse dos investidores foi impulsionado pelo movimento do mercado em 2020, quando companhias criadas por fundadores negros receberam maior visibilidade e recursos após o assassinato de George Floyd e da consequente pressão por iniciativas voltadas a diversidade, equidade e inclusão.

Segundo NDiaye-Mbaye, entretanto, as condições de mercado mudaram. No texto em que explicou o encerramento das operações, ela afirmou ter avaliado múltiplas alternativas antes de concluir que não seria viável manter a empresa diante do cenário atual. Um dos fatores citados foi o descompasso entre as expectativas de retorno rápido dos investidores e o ritmo necessário para consolidar a base de consumidores em cosméticos, setor que exige altos investimentos em marketing, pesquisa e desenvolvimento.

Na prática, a empresária relatou que o crescimento acelerado em território nacional gerou pressões para aumentar produção e presença em pontos de venda, enquanto concorrentes com orçamentos mais robustos lançavam campanhas em larga escala. Mesmo com verba significativa destinada à divulgação, a marca enfrentou oscilações comuns no varejo de beleza: períodos de vendas expressivas alternados com semanas de baixa rotatividade de estoque. Esse fluxo irregular dificultou o equilíbrio entre produção, distribuição e geração de caixa.

O fechamento da Ami Colé ocorre em um momento em que o volume de investimentos em negócios fundados por pessoas negras recua nos Estados Unidos, atingindo o nível mais baixo em vários anos. Analistas atribuem essa retração ao ambiente político menos receptivo a políticas alinhadas a diversidade, equidade e inclusão, bem como à cautela dos fundos diante das incertezas macroeconômicas.

A decisão de descontinuar a marca, contudo, não significa o afastamento definitivo de NDiaye-Mbaye do segmento de beleza. A empreendedora declarou que pretende seguir atuando no setor, explorando novas possibilidades e formatos que permitam sustentar, a longo prazo, a proposta de valor construída desde a fundação da Ami Colé.

Até o encerramento oficial, previsto para o próximo mês de setembro, a empresa deve cumprir compromissos existentes com fornecedores e canais de venda, mas não há indicação de que haverá liquidação extraordinária de produtos ou renegociação do portfólio com outras marcas. Procurada, a equipe da Ami Colé não se manifestou sobre eventuais planos de transferência de patentes, fórmulas ou inventário.

Com o fim das atividades, a história da Ami Colé passa a integrar o conjunto de casos que ilustram as dificuldades enfrentadas por startups de consumo voltadas a nichos específicos, especialmente quando dependem de capital externo para expansão rápida. A trajetória da marca ressalta, ainda, os desafios adicionais enfrentados por empreendedores negros em um ecossistema de inovação onde o acesso a financiamento permanece desigual.