Medo de perder o emprego para a IA recua no Brasil, mas confiança na tecnologia segue baixa

O receio de ser substituído por sistemas de inteligência artificial diminuiu de forma significativa entre os trabalhadores brasileiros. De acordo com a edição mais recente do relatório global AI Monitor, elaborado pela Ipsos, 42% dos entrevistados no país afirmam temer a perda do emprego para a IA, percentual inferior aos 57% registrados no levantamento anterior, realizado em 2024. A pesquisa, obtida com exclusividade pelo podcast “Deu Tilt”, consultou mais de 23 mil pessoas de 18 a 74 anos em 30 nações por meio de entrevistas on-line.

Além de medir a ansiedade em relação ao desemprego, o estudo observou uma queda na expectativa de mudanças profundas no ambiente de trabalho. No ano passado, 73% dos brasileiros acreditavam que as ferramentas de IA alterariam a forma como exercem suas atividades; neste ano, esse índice caiu para 61%. Especialistas apontam que o contato diário com aplicativos baseados em IA tem ajudado a revelar tanto as fortalezas quanto as limitações dessas soluções, reduzindo projeções mais dramáticas sobre substituição de mão de obra.

Dados do Instituto Datafolha reforçam a percepção de que o nível de escolaridade influencia o grau de preocupação. Entre respondentes com ensino fundamental completo, 61% manifestam medo de que a IA ameace seus postos de trabalho; entre quem possui ensino superior, a proporção recua para 48%. A diferença está relacionada ao tipo de tarefa desempenhada: atividades intelectuais repetitivas tendem a ser automatizadas antes de funções físicas ou que exigem interação humana presencial.

A familiaridade com o conceito de inteligência artificial também apresentou leve avanço. No AI Monitor, a parcela de brasileiros que afirmam entender o que é IA passou de 64% para 66%. Apesar disso, apenas 47% confiam que empresas do setor protegerão adequadamente seus dados pessoais, e o otimismo geral diminuiu. Enquanto 64% enxergavam mais benefícios do que riscos em 2024, agora 58% mantêm essa avaliação.

O episódio do “Deu Tilt” ainda abordou problemas decorrentes do uso indiscriminado de modelos generativos. Um deles envolve vídeos racistas e antissemitas produzidos com o Veo 3, ferramenta de criação audiovisual do Google. Investigação da organização MediaMatters identificou a publicação desses conteúdos no TikTok, muitos trazendo a própria marca-d’água do Veo 3, o que evidencia falhas tanto nos filtros da tecnologia de origem quanto nos mecanismos de moderação da plataforma que os hospeda. O caso reabre o debate sobre a necessidade de regras mais rígidas para responsabilizar empresas pelo material que geram ou distribuem.

Outro fenômeno destacado foi o crescimento das casas de apostas on-line. Levantamento da SimilarWeb com 196 sites legalizados indica que, entre janeiro e maio, o volume de acessos diários subiu de 55 milhões para 68 milhões, colocando as “bets” na segunda posição entre os endereços mais visitados do país, atrás apenas do Google. Cerca de 67,8% dessas visitas ocorrem de forma direta, sinalizando elevada fidelidade dos usuários — tendência que deve se intensificar com a liberação, pelo Google, da oferta de aplicativos de apostas na loja Play Store.

Em um panorama mais amplo, pesquisadores da Universidade de Oxford identificam um “abismo digital” na infraestrutura de IA. Segundo o estudo citado no podcast, todo o poder computacional dedicado à tecnologia está concentrado em 32 países, com maior presença de data centers nos Estados Unidos, na China e na União Europeia. A primeira onda da IA generativa, iniciada no fim de 2022, permitiu que empresas de menor porte participassem do desenvolvimento de modelos de linguagem, mas a fase atual exige investimentos bilionários em terra, energia e mão de obra qualificada, restringindo a competição a grandes corporações.

Esses temas — da mudança na percepção dos trabalhadores brasileiros à escalada de custos para desenvolver novos sistemas — ilustram como o avanço da inteligência artificial afeta diferentes camadas da sociedade e da economia. Conforme a adoção de ferramentas automatizadas se expande, vão ganhando relevância discussões sobre proteção de dados, moderação de conteúdo e desigualdade de acesso à infraestrutura digital.