Nvidia e AMD retomam exportações de chips de IA para a China com aval dos EUA

As norte-americanas Nvidia e Advanced Micro Devices (AMD) informaram que voltarão a comercializar unidades de processamento voltadas a aplicações de inteligência artificial (IA) para clientes chineses. A decisão ocorre cerca de três meses após o Departamento de Comércio dos Estados Unidos ter interrompido, na prática, esse tipo de envio ao exigir licenças especiais para qualquer chip com desempenho acima de determinados limites.

Restrições e adaptação das fabricantes

O governo dos EUA introduziu, em 2022, um pacote de controles de exportação destinado a limitar o acesso da China a semicondutores de alta performance. A medida impôs valores máximos de capacidade de cálculo e largura de banda para GPUs dedicadas a centros de dados, impedindo a venda de modelos topo de linha, como a série H100 da Nvidia.

Para contornar as restrições sem violar as regras, ambas as empresas passaram a desenvolver versões menos potentes exclusivamente para o mercado chinês. A Nvidia apresentou o H20 em 2023, enquanto a AMD criou o MI308. Esses chips mantêm recursos de IA, mas com parâmetros de velocidade e interconexão ajustados para ficar abaixo dos limites regulatórios.

Apesar da estratégia, em abril de 2025 o Departamento de Comércio comunicou que mesmo os modelos “reduzidos” estariam sujeitos a licenças individuais. Na prática, a exigência suspendeu os embarques. A Nvidia estimou então um impacto de US$ 5,5 bilhões na receita do quarto trimestre fiscal; a AMD projetou uma redução de US$ 800 milhões.

Autorização e retomada dos envios

Em comunicado divulgado na noite de segunda-feira, a Nvidia informou que está protocolando pedidos formais para exportar novamente o H20. Segundo a empresa, autoridades norte-americanas indicaram que as licenças serão concedidas, o que permitirá retomar as entregas “em breve” – não foi fixada data específica.

Além do H20, a companhia apresentou um processador inédito batizado de RTX PRO, descrito como “totalmente compatível” com as normas vigentes. A Nvidia afirmou que o componente é destinado a gêmeos digitais usados na automação de fábricas e cadeias logísticas, mas não divulgou especificações técnicas nem confirmou explicitamente se também será oferecido à China.

A AMD, por sua vez, comunicou que prepara documentação semelhante para o MI308 e espera receber sinal verde dentro do mesmo enquadramento regulatório. Assim como a concorrente, a empresa não detalhou prazos de envio.

Impacto financeiro e projeções

A notícia impulsionou o valor das ações das duas fabricantes na sessão desta terça-feira. Os papéis da Nvidia subiram 3,9 %, enquanto os da AMD avançaram 5,6 %. Analistas da gestora Hargreaves Lansdown projetam que a volta das exportações pode acrescentar US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões à receita anual da Nvidia, embora o montante dependa de dois fatores principais: a velocidade de liberação das licenças e a capacidade de ampliar a produção para atender à demanda reprimida.

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Imagem: siliconangle.com

Em termos de mercado, a China continua relevante para ambas as empresas. No exercício fiscal encerrado em 26 de janeiro, a Nvidia registrou US$ 17 bilhões em vendas no país, mesmo após a redução imposta pelos controles de 2022. O diretor-executivo Jensen Huang declarou que as restrições reduziram pela metade o faturamento local, mas ainda assim mantiveram a região como uma das mais significativas para a companhia.

Demanda de clientes chineses

A procura por hardware de IA no território chinês permanece alta. De acordo com fontes ouvidas pela agência Reuters, grupos de tecnologia como ByteDance – controladora do TikTok – e Tencent planejam encomendar lotes do H20 assim que o produto voltar a ficar disponível. Esses clientes estão envolvidos em projetos de nuvem, serviços de vídeo e modelos generativos, áreas que exigem grande poder de computação.

Analistas apontam que as empresas locais enfrentam limitação de acesso a alternativas de ponta, como o H100, e portanto veem nas versões ajustadas uma oportunidade de manter seus programas de IA em evolução. A busca intensa por unidades prontas para entrega imediata teria levado alguns compradores a formar filas de reserva antes mesmo da formalização das licenças.

Perspectivas regulatórias

Embora o sinal verde atual represente alívio para o setor, especialistas lembram que Washington pode revisar as normas a qualquer momento. Os controles de exportação têm como objetivo restringir avanços militares chineses em aplicações de IA e supercomputação. Dessa forma, cada iteração de chip ou inovação de arquitetura poderá voltar a ser analisada caso ultrapasse os limites estipulados.

As fabricantes, por sua vez, continuam a ajustar portfólios para atender simultaneamente às exigências governamentais e às necessidades de clientes globais. A Nvidia reforçou que seguirá colaborando com as autoridades para garantir “conformidade total” em futuras gerações de produtos. A AMD adotou posicionamento semelhante, afirmando que a estratégia inclui desenvolver componentes que equilibrem performance e aderência às regras.

Mesmo com a incerteza regulatória, o avanço da IA generativa e de aplicações de machine learning mantém a demanda por GPUs em alta em vários mercados. A liberação de licenças para o H20 e o MI308 oferece às empresas chinesas uma rota para atualizar infraestruturas enquanto novos acordos internacionais não são costurados.