Má qualidade de dados ameaça eficiência e custos de projetos de inteligência artificial
São Paulo – A sustentabilidade de projetos de inteligência artificial (IA) depende diretamente da qualidade dos dados que alimentam os modelos. Estimativa do Gartner indica que, até 2026, 60% das iniciativas nessa área correm o risco de fracassar por falhas na consistência, relevância ou confiabilidade das informações utilizadas. O alerta reforça a necessidade de controlar rigorosamente todo o ciclo de vida dos dados, desde a coleta até a aplicação em análises e tomadas de decisão.
Volume elevado não garante valor
O cenário corporativo atual é caracterizado por grande disponibilidade de dados, resultado de múltiplos sistemas operacionais, canais digitais e fontes externas. O acúmulo sem padronização, porém, criou repositórios repletos de registros redundantes, desatualizados ou de procedência incerta. Quando esses insumos são empregados em modelos de IA, há risco de obter saídas aparentesmente adequadas no início do projeto, mas incapazes de sustentar decisões críticas em situações adversas ou estratégicas.
A comparação mais recorrente entre especialistas é com a alimentação de uma equipe de alto rendimento: se a dieta oferecer apenas fast food, o impacto negativo pode não ser imediato, mas surgirá gradualmente em forma de queda de desempenho, falhas e custos médicos. Aplicada à IA, a analogia ilustra a diferença entre algoritmos sofisticados e o “combustível” que realmente os impulsiona. A ausência de dados preparados, verificados e contextualizados compromete qualquer ganho obtido na camada tecnológica.
Consequências financeiras e operacionais
Modelos abastecidos com informações imprecisas exigem retrabalho de desenvolvimento, correções de análise e processos de higienização posteriores. Esses ajustes ampliam o tempo de projeto e elevam despesas em equipe, infraestrutura e suporte. O resultado é uma operação aparentemente inovadora, mas que gera custos invisíveis e reduz a competitividade no longo prazo.
Além disso, decisões baseadas em dados distorcidos podem impactar diretamente receitas, reputação e conformidade. Setores como finanças, saúde e varejo lidam com exigências regulatórias e metas de desempenho sensíveis a qualquer erro analítico. Nessas áreas, a confiabilidade das informações é tão relevante quanto a eficiência do algoritmo.
Cultura de curadoria e responsabilidade
Especialistas apontam que a raiz do problema raramente está na tecnologia de modelagem. A lacuna principal reside na ausência de processos contínuos de governança de dados – conjunto de políticas, papéis e controles destinados a assegurar integridade e relevância das informações. Para que a IA alcance objetivos de negócio, cada etapa do pipeline precisa de validação: origem, limpeza, enriquecimento, catalogação, versionamento e monitoramento.
Segundo Anderson Paulucci, CDO e cofundador da Triggo.ai, muitas organizações recorrem a bases prontas ou de fácil acesso para ganhar velocidade de entrega, deixando em segundo plano a qualificação sistemática dos registros. A tática costuma gerar resultados rápidos, mas eleva riscos e custos de manutenção à medida que os modelos entram em produção e exigem escalabilidade.
Gestão de dados como pilar estratégico
Iniciativas de melhoria de qualidade não se limitam a ferramentas de limpeza ou plataformas de integração. A mudança inclui:
- Definição de padrões de dados: Estabelecer formatos, dicionários e políticas de entrada.
- Auditoria contínua: Monitorar discrepâncias, redundâncias e obsolescência com métricas claras.
- Contextualização: Garantir que cada conjunto seja relevante ao problema de negócio que se deseja resolver.
- Capacitação: Engajar equipes técnicas e de negócios em boas práticas de coleta, documentação e uso.
Ao posicionar a governança de dados no centro da estratégia, companhias diminuem falhas, aceleram a geração de insights e preservam recursos. A próxima etapa de evolução da IA depende menos de modelos inéditos e mais da maturidade com que as organizações tratam, preservam e distribuem suas informações.
Com a proximidade do prazo apontado pelo Gartner, cresce a pressão para que lideranças de tecnologia, dados e negócios adotem planos de ação concretos. Sem esse movimento, as empresas correm o risco de manter investimentos significativos em algoritmos avançados, mas operando com a mesma ineficiência de quem abastece motores de alta performance com combustível adulterado.

