Escritor italiano Sandro Veronesi confirma participação na 23ª Flip e diz não temer disputa com a inteligência artificial

Convidado de honra da 23ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o romancista italiano Sandro Veronesi, 66 anos, afirmou que vê a inteligência artificial (IA) como ferramenta a ser compreendida, não como ameaça direta a seu ofício. O autor, vencedor dos prêmios literários Strega e Campiello, desembarca no Brasil em julho para participar da mesa dedicada às “histórias da vida comum”, tema que atravessa grande parte de sua obra.

A edição deste ano da Flip ocorre de 30 de julho a 3 de agosto, na cidade de Paraty, litoral sul fluminense. Veronesi sobe ao palco no dia 31, quando abordará elementos de romances como “O Colibri” e “Setembro Negro” — títulos publicados no país pela Autêntica Contemporânea e bem acolhidos pela crítica brasileira.

Questionado sobre o avanço de programas de IA generativa, o escritor disse não temer competir com algoritmos, mas alertou para a falta de conhecimento sobre o funcionamento dessas tecnologias. Ele relatou ter usado o ChatGPT para buscar informações a seu respeito e se surpreendeu ao encontrar obras do conterrâneo Andrea Camilleri listadas como se fossem suas. “Para onde vão esses erros?”, indagou, classificando a imprecisão como motivo de preocupação, não como sinal de perda de espaço para sistemas automatizados.

O autor de “Caos Calmo”, traduzido para dezenas de idiomas, viajará acompanhado de um de seus filhos mais novos. Pai de cinco, ele contou que nunca obrigou as crianças a ler. Sempre que era interrompido por um chamado doméstico, respondia: “Estou ocupado, estou lendo”. Segundo Veronesi, a estratégia despertou curiosidade natural e levou todos os filhos, inclusive os nascidos na época das redes sociais, a desenvolver o hábito da leitura.

Na avaliação do escritor, a expansão do ambiente digital não explica sozinha eventuais quedas nos índices de leitura em alguns países. Ele atribui parte do problema a questões industriais, como o valor de capa dos livros na Itália, atualmente em torno de 20 euros. Redes sociais, observou, funcionam como passatempo que exige pouco envolvimento intelectual, mas não necessariamente afastam o público que já se dedica à literatura.

Embora afirme não gostar de “contar histórias verdadeiras”, Veronesi reconhece que elementos autobiográficos e memórias influenciam seu processo criativo. No caso de “Setembro Negro”, lançado no Brasil há dois meses, a trama sobre o adolescente Gigio Bellanti — que amadurece durante o verão de 1972 — surgiu integralmente, segundo ele, durante uma viagem de carro que durou menos de três horas. “Foi como se o romance viesse pronto à mente”, declarou.

Em sua primeira passagem pela Flip, o florentino também pretende celebrar a afinidade com a literatura latino-americana. Leitor assíduo de Jorge Amado desde a juventude, Veronesi cita ainda autores como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa entre suas principais referências fora da Itália. O convite deste ano reforça, para ele, esse vínculo cultural com a região.

Mesmo de olho no circuito literário, o escritor não deixa de acompanhar futebol. Ele destacou com bom humor a escolha do compatriota Carlo Ancelotti para comandar a seleção brasileira a partir de 2024. “Ancelotti é um grande embaixador da Itália”, comentou, revelando expectativa dupla: revisitar a obra de Jorge Amado in loco e observar, de perto, a empolgação nacional pelo novo técnico.

A presença de Veronesi na programação da Flip sinaliza, segundo os organizadores, a aposta em narrativas que exploram a vida cotidiana como espaço de reflexão social. Entre leituras, debates e sessões de autógrafos, o autor pretende apresentar ao público brasileiro seu olhar sobre família, memória e transformação pessoal, temas que permeiam mais de três décadas de carreira.

Após Paraty, o escritor retornará à Itália para concluir um novo romance — cujo título e data de lançamento ainda não foram divulgados —, mas confirma que a experiência no Brasil deve ocupar espaço relevante em futuros projetos. “Tenho alta expectativa”, resumiu, antes de embarcar para a festa literária fluminense.