Lesões em Starbase superam média do setor e destacam desafios de segurança na SpaceX

A unidade Starbase, no sul do Texas, registrou em 2024 a maior taxa de acidentes de toda a estrutura fabril da SpaceX, mantendo um índice de lesões que ultrapassa em quase seis vezes a média de empresas do mesmo segmento e dobra a média da indústria aeroespacial norte-americana.

Dados enviados pela companhia à Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos (OSHA) indicam que o Total Recordable Incident Rate (TRIR) de Starbase alcançou 4,27 lesões a cada 100 trabalhadores no ano passado. O resultado foi calculado a partir de 2.690 empregados em média, 3.558 dias de trabalho com restrição de função e 656 dias totalmente perdidos por afastamentos decorrentes de acidentes.

Starbase integra o programa mais ambicioso da empresa: o desenvolvimento do Starship, veículo reutilizável de grande porte que Elon Musk planeja utilizar em missões de carga, satélites Starlink e, futuramente, viagens tripuladas a Marte. Desde o primeiro voo orbital, em abril de 2023, nove voos integrados foram tentados e, em três ocasiões, o propulsor Super Heavy foi capturado pelos braços mecânicos instalados na torre de lançamento.

Embora o ritmo acelerado de testes tenha impulsionado avanços técnicos, a evolução veio acompanhada de índices de segurança considerados elevados. O TRIR de 4,27 situa-se próximo aos 4,2 pontos observados em 1994, ano em que a média do setor foi essa mesma marca. Segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS), o índice médio do segmento “fabricação de veículos espaciais” caiu para 0,7 em 2023, refletindo melhorias substanciais de processos nas últimas três décadas.

Em todo o portfólio fabril da SpaceX, o TRIR médio foi de 2,28 em 2024. As demais instalações apresentaram os seguintes indicadores: McGregor (Texas) 2,48; Bastrop (Texas) 3,49; Hawthorne (Califórnia) 1,43; e Redmond (Washington) 2,89. Mesmo abaixo de Starbase, a maioria desses valores supera o referencial de 1,6 atingido pela indústria aeroespacial como um todo no mesmo período.

Entre concorrentes que produzem foguetes em operação, os índices são significativamente menores. A United Launch Alliance (ULA) registrou TRIR de 1,12 em sua fábrica de Decatur, Alabama, enquanto a instalação da Blue Origin na Flórida apresentou 1,09. O único local da SpaceX que supera Starbase é a operação de recuperação de propulsores na costa oeste, com índice de 7,6.

Starbase também concentrou grande parte das inspeções oficiais. Das 14 averiguações realizadas pela OSHA nas unidades da empresa nos últimos quatro anos, seis ocorreram nesse complexo texano. Os registros incluem amputação parcial de dedo em 2021 e a queda de um guindaste em junho de 2025, caso ainda sob análise do órgão regulador. Investigações jornalísticas independentes relataram dezenas de incidentes adicionais, entre lesões graves e um óbito.

Especialistas divergem sobre a utilidade do TRIR como métrica única. Estudos recentes questionam sua validade estatística para prever acidentes fatais, principalmente em empresas de menor porte, e sugerem a adoção de indicadores complementares. Ainda assim, profissionais como Debbie Berkowitz, ex-chefe de gabinete da OSHA, consideram o patamar observado em Starbase um sinal de que “há problemas sérios de segurança a serem enfrentados”.

Na esfera governamental, a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) acompanha de perto o desempenho da Starship. A agência destinou mais de US$ 4 bilhões para dois voos tripulados do veículo à superfície lunar ainda nesta década. Tanto o contrato do pousador lunar quanto o de transporte de tripulação à Estação Espacial Internacional contêm cláusulas que permitem intervenção em caso de fatalidade ou infração grave reiterada às normas da OSHA. Contudo, índices elevados de TRIR, por si só, não configuram quebra contratual.

Questionados sobre os números de segurança, a OSHA confirmou o cálculo do TRIR para Starbase, mas não comentou sobre possíveis ações adicionais. A SpaceX não respondeu aos pedidos de esclarecimento. A NASA, por sua vez, afirmou manter contato regular com todos os parceiros comerciais para garantir “uma cultura de segurança saudável” e enfatizou que a proteção de pessoal e missões permanece “fundamental para o sucesso” da agência.