Tecnologia de micro­sensoriamento permite monitorar em tempo real a evolução do câncer, indica estudo

Um artigo publicado na revista Science Advances detalha uma metodologia que utiliza a tecnologia de micro­sensoriamento da francesa Sensome para acompanhar, de forma não invasiva e em tempo real, processos celulares ligados à progressão do câncer. O trabalho é resultado de vários anos de colaboração entre a própria empresa, a École Polytechnique e o Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS), com apoio do Center for Nanoscience and Nanotechnology (C2N).

A abordagem combina micro­arranjos de eletrodos, espectroscopia de impedância elétrica (EIS) e algoritmos preditivos. Esses algoritmos aceleram a interpretação dos sinais, aumentam a resistência a ruídos e reconhecem padrões complexos, superando as limitações das análises tradicionais de EIS. Segundo os autores, trata-se do primeiro uso da técnica para quantificar em tempo real dinâmicas espaço-temporais de células — ou seja, as mudanças que ocorrem na morfologia e na distribuição celular ao longo do tempo.

No experimento descrito, pesquisadores do Laboratório de Hidrodinâmica da École Polytechnique (LadHyX) expuseram o sensor da Sensome a culturas de células epiteliais mamárias normais e cancerosas. A partir apenas das medições de impedância, o sistema conseguiu prever com precisão a evolução da densidade celular, a cobertura do substrato, o diâmetro médio das células e o tipo celular, resultados que coincidiram com observações feitas por microscopia. Além disso, foi possível acompanhar, em tempo real, heterogeneidades espaciais no crescimento de células malignas e a competição entre células saudáveis e tumorais.

Atualmente, o acompanhamento dessas variáveis depende principalmente de microscopia de fluorescência. Apesar de difundida, essa técnica pode causar citotoxicidade devido aos corantes, provocar foto­danos durante longas sessões de imagem e enfrenta restrições quando a amostra é opaca. A solução proposta pelos pesquisadores contorna essas limitações ao dispensar marcadores fluorescentes, reduzir interferências no comportamento natural das células e permitir monitoramento prolongado.

Segundo os responsáveis pelo estudo, a metodologia tem potencial para eliminar a necessidade de imagens microscópicas em diversas etapas do monitoramento de células cancerígenas, ampliando o conhecimento sobre a interação e a organização das células ao longo do desenvolvimento tumoral. A Sensome pretende agora explorar aplicações clínicas, incluindo a detecção in situ de câncer de pulmão, e busca parceiros industriais para transformar a prova de conceito em dispositivos médicos voltados à prática clínica.

A tecnologia de detecção tumoral desenvolvida pela companhia permanece em fase investigacional e ainda não recebeu autorização para uso comercial nos Estados Unidos nem em outras jurisdições.