Venda do chip H20 à China é vinculada a negociação de terras raras entre EUA e Pequim
A permissão dada à Nvidia para retomar o fornecimento do chip de inteligência artificial H20 à China integra o pacote de entendimentos que os Estados Unidos conduzem sobre o comércio de terras raras. A informação foi confirmada pelo secretário de Comércio norte-americano, Howard Lutnick, em entrevista à agência Reuters na terça-feira, 15 de julho de 2025.
Segundo Lutnick, a liberação foi “incluída no acordo comercial com os ímãs”, referência a tratativas articuladas pela Casa Branca para restabelecer o embarque de elementos de terras raras a fabricantes sediados nos Estados Unidos. Esses 17 minerais, embora representem pequena fração de cada produto, são considerados insubstituíveis na produção de smartphones, câmeras digitais, telas de LED e em vários componentes de alta tecnologia.
A sinalização do Departamento de Comércio ocorreu poucos dias depois de o presidente Donald Trump receber o diretor-executivo da Nvidia, Jensen Huang, em Washington. O encontro tratou do impacto do bloqueio imposto em abril, que suspendeu as vendas do H20 ao mercado chinês e, de acordo com estimativas da companhia, provocou prejuízos de alguns bilhões de dólares.
Na segunda-feira, 14 de julho, a Nvidia anunciou ter obtido autorização formal para voltar a comercializar o H20 na China. O modelo foi desenvolvido especificamente para atender às restrições norte-americanas, oferecendo desempenho inferior aos chips mais avançados da empresa e, assim, permanecendo abaixo dos limites de exportação impostos por Washington para tecnologias sensíveis.
A retomada das entregas, prevista para ocorrer “em breve”, marca a primeira flexibilização significativa nas medidas de controle de exportação de semicondutores para o mercado chinês desde o endurecimento das regras em 2022. Apesar do passo, a Nvidia continua impedida de enviar suas unidades mais potentes, baseadas na arquitetura de última geração. A companhia informou que prepara uma nova versão, ainda sujeita a limitações técnicas para se adequar às normas vigentes.
O acordo em torno do H20 funciona, na prática, como moeda de troca nas conversas sobre o fornecimento de terras raras. A China é responsável por cerca de 60 % da produção global desses minerais e detém capacidade de processamento que dificilmente pode ser substituída em curto prazo. Os Estados Unidos buscam garantir fluxo contínuo de matéria-prima essencial para as cadeias produtivas domésticas, ao mesmo tempo em que tentam restringir o acesso chinês a tecnologias críticas, como chips de IA de alto desempenho.
Desde o início do ano, Huang intensificou viagens entre Washington e Pequim para tentar preservar a presença da Nvidia nos dois maiores mercados de semicondutores do planeta. Em junho, a capitalização de mercado da companhia ultrapassou US$ 4 trilhões, consolidando a relevância de seus produtos para setores como computação em nuvem, data centers e aplicações de inteligência artificial.
Em meio às negociações, a Casa Branca mantém a política de supervisão sobre licenças de exportação, ferramenta utilizada para calibrar o equilíbrio entre segurança nacional e interesses econômicos. Lutnick não detalhou o cronograma nem os volumes que poderão ser fornecidos, mas reiterou que o Departamento de Comércio continuará a monitorar o destino final dos chips, exigindo que as empresas comprovem conformidade com as regras.
Para os fabricantes chineses, a volta do H20 ameniza parte das dificuldades geradas pela escassez de GPUs voltadas a aplicações de IA. Nas últimas semanas, empresas de tecnologia e start-ups do país relatavam atrasos em seus projetos de treinamento de modelos avançados, devido à incapacidade de importar componentes equivalentes de outros fornecedores.
Especialistas do setor observam que o desfecho atual não altera o objetivo estratégico norte-americano de limitar a evolução tecnológica militar da China, mas sinaliza espaço para ajustes nas restrições quando interesses industriais dos EUA também estão em jogo. Na prática, a ligação entre o chip H20 e o fluxo de terras raras evidencia a interdependência entre os dois países em cadeias produtivas de alto valor agregado.
Enquanto os embarques do H20 são retomados, seguem em discussão alternativas para diversificar a origem de terras raras e reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China. Projetos de mineração em países como Austrália, Canadá e Brasil estão no radar, mas analistas apontam que a construção de capacidade de refinamento fora do território chinês demandará investimentos altos e vários anos de maturação.

