Vídeos racistas gerados com IA do Google inundam o TikTok e expõem falhas de moderação

Uma série de vídeos criados com o Veo 3, ferramenta de inteligência artificial do Google capaz de produzir imagens ultrarrealistas, vem circulando livremente no TikTok com conteúdos abertamente racistas, antissemitas e discriminatórios. As peças mostram, entre outras cenas, pessoas negras retratadas como macacos, judeus ortodoxos perseguindo moedas, um homem indiano em situação de ridículo e policiais atirando em homens negros antes de qualquer abordagem. Alguns desses posts alcançaram milhares de visualizações antes de serem identificados pela MediaMatters, organização que monitora plataformas digitais.

De acordo com o grupo, a ByteDance, controladora do TikTok, não adotou medidas eficazes para remover o material, apesar de suas próprias diretrizes proibirem conteúdos que promovam desumanização racial ou incitação à violência. Procurado, o TikTok afirma possuir políticas específicas contra esse tipo de publicação e ressalta a adesão ao C2PA, coalizão formada por empresas de tecnologia para rastrear e rotular produções geradas por IA. Na prática, entretanto, as diretrizes não impediram que o fluxo de vídeos ofensivos se mantivesse ativo na rede social.

Para especialistas ouvidos no podcast “Deu Tilt”, do portal UOL, o episódio evidencia duas camadas de problema. A primeira está na moderação da plataforma, que não conseguiu barrar posts que violam seus próprios termos de uso. A segunda reside nas proteções internas — ou “guardrails” — dos modelos de IA. Segundo o professor e pesquisador Diogo Cortiz, o Google lançou o Veo 3 em meio à corrida pela inteligência artificial, antes de garantir mecanismos confiáveis que limitassem aplicações abusivas. Ele argumenta que, quando vídeos discriminatórios eram produzidos de forma artesanal, a escala era menor. Com a automação, a produção e a difusão tornam-se praticamente ilimitadas, ampliando a pressão sobre as redes sociais.

A falha ocorre num momento de atenção mundial ao impacto das grandes plataformas na propagação de discursos de ódio. Embora empresas de tecnologia se comprometam publicamente com ações de moderação, o caso mostra que a combinação entre sistemas generativos cada vez mais potentes e políticas de fiscalização insuficientes cria um ambiente propício à disseminação de conteúdo prejudicial.

Frequência de apostas supera WhatsApp no Brasil

Enquanto o debate sobre a responsabilidade das Big Techs avança, outro movimento chama atenção no ambiente digital brasileiro. Levantamento da SimilarWeb com 196 casas de apostas legalizadas revela que, entre janeiro e maio de 2025, o volume de acessos diários a esses sites saltou de 55 milhões para 68 milhões. O número coloca as “bets” como o segundo destino online mais acessado no país, atrás apenas do Google, superando inclusive serviços como WhatsApp e YouTube.

O estudo aponta que 67,8% das visitas ocorrem de forma direta — quando o usuário digita o endereço no navegador ou usa um favorito — sinalizando forte reconhecimento de marca impulsionado por contratos publicitários com influenciadores, atletas e clubes de futebol. A tendência deve se reforçar com a recente autorização do Google para que casas de apostas disponibilizem aplicativos na loja Google Play, o que reduz barreiras de instalação e favorece a fidelização do público.

Infraestrutura de IA concentra-se em poucos países

No mesmo episódio do podcast, os apresentadores discutiram o chamado “abismo digital” na inteligência artificial. Estudo da Universidade de Oxford indica que toda a infraestrutura computacional necessária para treinar modelos avançados está distribuída em apenas 32 países. Estados Unidos, China e União Europeia concentram a maior parte dos data centers de alto desempenho, enquanto nações com menos recursos enfrentam obstáculos para competir na área.

Especialistas destacam que a segunda onda da IA generativa exigirá investimentos expressivos em energia, equipamentos e mão de obra especializada. Diferentemente da fase inicial, iniciada no fim de 2022, o patamar atual limita a participação de atores menores, restringindo a inovação a conglomerados com grande capacidade financeira.

Menos brasileiros temem perder o emprego para a IA

Pesquisa global da Ipsos sobre percepção tecnológica mostra que o receio dos brasileiros de serem substituídos por algoritmos vem caindo. Na edição de 2025, 43% dos entrevistados demonstraram esse medo, contra 57% registrados no levantamento de 2024. O contato mais frequente com ferramentas baseadas em IA parece ter reduzido a sensação de ameaça, ainda que o otimismo geral também tenha recuado.

Para analistas, a familiaridade crescente com aplicações práticas — como tradutores automáticos, assistentes virtuais e plataformas de criação de conteúdo — contribui para um olhar mais realista sobre vantagens e limitações da tecnologia. Mesmo assim, a exigência por políticas públicas e direcionamento ético permanece em pauta, sobretudo diante de episódios de desinformação e discurso de ódio facilitados pela expansão dos sistemas generativos.

Ao evidenciar lacunas na moderação de conteúdo e na implementação de salvaguardas dentro das próprias ferramentas, o caso dos vídeos racistas produzidos pelo Veo 3 reforça a urgência de mecanismos mais robustos. Enquanto gigantes de tecnologia buscam soluções, a proliferação de conteúdos ofensivos e o crescimento vertiginoso de novos serviços digitais — como as casas de apostas — mostram que o cenário online se torna cada vez mais complexo e desafiador.